Sempre quando perguntavam na escola que 'bichinho' eu queria ser, eu parava e pensava muito... Enquanto meus colegas tinham sempre a resposta na ponta da língua "cachorro", "cavalo", "gatinho", eu me demorava e por fim respondia "borboleta". Quando nos perguntavam por que, eles sempre respondiam "queria ser um cachorro porque ele é fiel", "queria ser um cavalo porque ele é forte e veloz", "queria ser um gatinho porque ele é esperto e lindo", e eu nunca sabia porque queria ser uma borboleta, eu via na expressão dos professores e/ou psicólogos uma certa 'decepção', eu só sabia lhes dizer que achava a borboleta muito bonita, e isso não era explicação suficiente. Com o passar do tempo, este ano me deparei com uma aula em um curso que fiz onde a professora pedia que redigíssimos um pequeno texto sobre um animal com o qual nos achávamos parecidos, ou queríamos ser, e fóssemos explicar à frente da turma. Me lembrei das fases da minha vida, e do quanto eu gostava da borboleta, de quantas oportunidades perdera de dizer o porque gostava tanto dela e porque me identificava com ela, até que depois de pensar um pouco resolvi escrever, e escrevi muito até... Fui à frente. Mais uma vez meus colegas, alguns até mais velhos que eu haviam escolhidos os mesmos bichinhos da minha infância e pré-adolescência por suas qualidades óbvias, eu era a única borboleta.
- Mas por que uma borboleta? - perguntou a professora.
Eu olhei pela primeira vez pra todas aquelas pessoas tendo a certeza absoluta de porque eu havia escolhido a borboleta, e respondi:
- Sabe... Desconsiderando suas funções biológicas a borboleta é tudo que eu realmente queria ser.
Alguns olhares curiosos focaram-se em mim, e eu um pouco nervosa segurando a foto de uma borboleta na mão, quase como na 4ª série, respondi:
- A borboleta possui a capacidade de voar, bem como uma garota como eu possui a capacidade de sonhar, e voar longe, ainda que sem asas. Ela voa de maneira graciosa e linda, e encanta todos por onde passa, ela é delicada e suave, ao tempo que nunca passa despercebida. Ela é linda, entretanto é frágil, um simples toque descuidado, ou uma aproximação hostil, pode esfacelá-la, bem como pode partir um frágil coração. Seu instinto sempre a guia pra o que há de mais bonito na natureza, ela sempre pousa em meio a jardins, flores, e eu sempre pouso em meio à arte e poesia que derivam da beleza da vida. A impressão que eu tenho é que a borboleta é eternamente apaixonada, é intensa e sutil... Possui em si as mais bonitas cores, as mais diversas impressões, e eu possuo os mais diversos, intensos e coloridos amores. A borboleta é o animal com o qual mais me identifico porque ela é o que é, sem máscaras, sem disfarces, mesmo quando em repouso, ela levanta suas asas, e as deixa a mostra. Eu a admiro porque ela não espera acontecer, ela sempre faz a hora, está sempre disposta a voar outra vez, a recomeçar, ela parte em busca do que quer, de novos cheiros e sabores, ela é sensível, bem como eu... e por vezes mal interpretada já que algumas variações de sua espécie possuem em suas asas um pó que se levado aos olhos é capaz de cegar. Não é intenção da borboleta cegar ninguém, mas às vezes ao tentar se defender de ter as asas partidas, ela acaba causando prejuízos à alguém. Por tudo isso e certamente mais alguma coisa que não consigo me lembrar... Eu sou uma 'borboleta'.
(...)
E depois de proferir todo meu discurso, eu finalmente descobri que não havia escrito nem metade daquilo, mas que agora eu entendia porque gostava tanto das borboletas, porque queria ser como elas...
Então há alguns dias ao assistir um espetáculo de dança com intervenções teatrais, vi a vida de várias garotas no palco expressa em cada um dos passos e falas, vi suas emoções mais profundas expostas como tinta de caneta em papel, como um coração às avessas, os amores, paixões, medos e inseguranças e pensei comigo no quanto eu venho deixando meu lado borboleta de lado em algumas áreas. Ser borboleta é por alma em tudo que se faz, é vibrar do cabelo aos pés com a vida, o nosso maior presente, é por pra fora, se expor, sem medo de ser julgada, é alçar vôos difíceis, distantes, é pousar em lugares coloridos, bonitos, é Sentir, é Viver, é mostrar as asas, e não deixar a correria do dia-a-dia e ansiedade do amanhã roubar o prazer dos momentos singulares, dos mais doces amores, do cheiro de cada manhã, da arte, da poesia, do afeto, do abraço, das amizades... da dança, da escrita, do teatro, do riso e do choro! Acredito que toda menina em si possui um pouco de borboleta, algumas possui sua essência equilibrada... Mas outras, como eu... são de todo Borboleta ...na dor, no amor, na vida!
(Anamaria Fonsêca)
