Vantagens em ficar de cama o dia inteiro.
Fora o fato de você poder simplesmente dormir sem pressa pra acordar e sem ter hora marcada pra comparecer a canto algum (porque você mal consegue se levantar de tanta dor), tenho um ponto de vista interessante sobre ficar de cama o dia inteiro, em repouso. E, bem, começa justamente por aí: 'em repouso', que é tudo que nesses dias velozes e furiosos a gente renuncia, deixa passar, como se simplesmente não precisássemos recarregar as baterias.
Preciso dizer que sou mesmo adepta daquele velho clichê 'se a vida te dá limões faça uma limonada'. Claro que não há nada de maravilhoso em estar doente, não mesmo, mas se a vida te faz parar por um dia inteiro, você deve obedecê-la e buscar entender o que ela tem a te oferecer. No meu caso, descanso. Descanso que não consigo ter porque tenho 21 anos e tenho tanta coisa na cabeça que às vezes mal consigo administrar. É bom quando Deus faz você se deparar com seu desejo interior de desacelerar, porque às vezes é isso mesmo que você precisa pra viver melhor. Não importa quanta urgência há na vida, se você está sempre correndo perde a poesia do dia, do sorriso, da leitura prazerosa, da convivência gostosa, a simplicidade das coisas pequenas e na prática se satisfaz tanto mais em colocar coisas na sua agenda do que em realmente executá-las. Pelo menos eu sou assim, fico imaginando como seria quando tivesse uma vida mais intensa, se não me permitisse aprender com momentos assim, pois há tanto que quero realizar, mas não sem deixar de verdadeiramente aproveitar meus dias como um todo, a cada segundo, sem pressa.
Dias na cama obrigam a gente a fazer uma faxina mental, interior, porque não há muito mais a se fazer. Obrigam a gente a tirar aquela crosta de poeira dos cantos da nossa mente que não gostamos de mexer e das coisas com as quais não conseguimos lidar... Dias na cama trazem à memória aquilo pelo qual não conseguimos chorar pelos mais variados motivos, trazem a solidão real e não desejada de ser a única pessoa, de fato, a não estar fazendo nada de 'útil' o dia inteiro, e de, portanto, precisar conviver consigo mesma, não por opção, não porque quer estar longe das pessoas, simplesmente porque precisa aprender a estar só mesmo quando não quer, pois estamos. Sós e acompanhados. Sempre. É o paradoxo da vida.
Ficar de cama obriga você a refletir, e começar a arrumar a bagunça da sua vida pela sua mente. É o que acontece quando acumulamos muita coisa, durante muito tempo, e guardamos todo tipo de tralha pelo simples fato de guardar, sem distinguir o que é útil de inútil, sem aproveitar os recursos, sem reter as coisas boas, apenas guarda, guarda e guarda. Overdose de instintos, overdose de pensamentos. E a proteção pra isso é não pensar em nada. É não lidar com nada. É bem a situação em que meu quarto se encontra no meu momento, bem como minha mente, e talvez até meu coração. Por isso, no fim das contas, não posso reclamar muito de dias assim, tirando a dor física, e o exercício mental excessivo, em algum momento você precisa colocar as coisas em ordem não é? Se organizar, fazer uma limpeza, e acordar melhor no dia seguinte, sem tanta dor e talvez mais leve, mais livre, mais viva. O mérito de tudo isto então é da vida, da pausa, do descanso, portanto, sempre e tanto.
É, branco.
Branco que dá na memória, nos lábios, nas palavras e nas letras no papel quando você sabe tudo que quer dizer, mas não sabe por onde começar. Quando suas teorias são tantas, mas carecem profundamente de maior embasamento do que do empirismo característico ao seu critério de verdade. Tem horas que é preciso falar menos, e amadurecer mais. Amadurecer as idéias, as certezas e as palavras pra que elas tenham maior efeito, não apenas sobre o mundo onde elas ecoarão, mas sobre você mesmo, no caso sobre mim. Cansei de saber 'tudo' e não me fazer entendida, além de me acovardar e temer. Sou mal compreendida, e acho que isso é natural de mim, não vai mudar, mas se puder apresentar novas vertentes e me fazer uma mal compreendida que paradoxalmente é compreensível, acredito que chegarei onde devo estar. Por isso é hora de parar. Desacelerar. Não no sentido de retroceder ou estagnar como vivi durante cerca de um ano - com alguns lapsos desesperados e gritos silenciosos, calados em minh'alma - mas amadurecer, desabrochar, ser uma turbulência mais coerente. Educar a meninice, aprender com a vida das próprias lições que sei. Este é o momento de ser minha, mais eu, mais dos outros, do convívio, do fortalecimento, da transmissão... Da reciprocidade, do bate e volta do universo. E eu estou entendendo, curtindo, vivendo e vendo, pra chegar em um lugar, que sei exatamente onde é, onde quero estar, com a alma inteira e uma história nada passageira, mas eternizada em mim e através do que eu conseguir transmitir.
É hora de expandir limites, fronteiras e horizontes, rejeitar o medo (da rejeição), dar a cara e as palavras à tapa. Outra abordagem, outro ponto de vista da mesma vida, de todos os assuntos.
Até mais...
Ana F.





