Indivisíveis
O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra que havia num terreno baldio entre as nossas casas. Falávamos de coisas bobas, isto é, que achávamos bobas. Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos. Crianças... Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos a não ser o azul imenso dos olhos dela, olhos que eu não encontrava em ninguém mais, nem no cachorro e no gato da casa, que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso. E a mesma animal - ou celestial - inocência, porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu: Não, não importava as coisas bobas que disséssemos. Éramos um desejo de estar perto, tão perto que não havia ali apenas duas encantadas criaturas... mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra, enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...
Mário Quintana.
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Nós não somos mais crianças bobas, nem estamos sentados numa tosca pedra, mas somos ainda o desejo de estar perto, tão perto, que nos torna nada mais, nada menos, do que criaturas encantadas, assistindo quem passa por nossas vidas e não nota o que há entre nós de tão grandioso.
Eu, Aninha é quem digo.
