Há tanto da vida que eu queria compreender com propriedade, mas parece que não funcionaria se não houvesse essa vastidão em mistério. Primeiro eu gostaria de entender como podemos ser simultaneamente nossos melhores e piores inimigos... Como dá pra subestimar um pelo outro se estão sempre juntos, caminhando de mãos dadas, aguardando pra ver qual se manifestará diante de cada situação? É complexo saber que suas melhores armas estão guardadas com alguém que você não deveria confiar, ao tempo que é a única pessoa digna de sua integral confiança, pois é a única, mesmo com todos os defeitos possíveis e imagináveis, que você conhece no profundo. Difícil separar as coisas, manter a distância, analisar, ponderar... E eu admiro (tanto) quem consegue o equilíbrio ideal. Sei que essas pessoas não são sempre equilibradas, seria impossível equilibrar a natureza humana, mas elas são domadas, amestradas, por si próprias e deve ser muito mais fácil ser assim do que quando se é tão denso (e eu pareço só saber dizer isso...), intenso, e por tanto coração em tudo. Queria a dosagem certa do envolvimento, saber a hora certa de desistir e se realmente existe essa hora. Queria conhecer meus limites, ou pelo menos respeitá-los. Gostaria muito de não estar de mau-humor, mas eu quase não consigo evitá-lo, então quando emerge, eu apenas o respeito, sabe? Como uma dessas figuras míticas que ao se transformarem exigem uma certa distância entre si e o resto do mundo? Eu tento. Tento me manter sã, tento me manter só, quando nenhuma companhia, por melhor que seja, parece ideal, nem a minha própria. Naqueles dias em que talvez o suficiente seria um abraço da pessoa amada, ou das pessoas amadas, mas elas por se importarem tanto, às vezes insistem em perguntas que só fazem tudo parecer pior do que é. Relaxa, gente, é só meu monstrinho. É o monstrinho de cada um. É a humanidade, a região de solidão de todos nós. Saber que você caminha a vida toda e aprende tanto, mas nessa vida nunca deixará de ser simplesmente vulnerável às suas próprias emoções, e que por mais sábio que seja e mais auto-conhecimento que possua, será sempre e tão simplesmente humano, sujeito a si próprio, à caminhos desconhecidos exterior e interiormente. Vivendo uma aventura única, de onde não se pode escapar nem pra onde se pode retornar. Os arrependimentos devem ser mínimos, mas serão inevitáveis, eu estarei sempre jogando um jogo cujas regras jamais serão por mim totalmente absorvidas, de vez em quando eu vou errar, eu erro, e insisto, porque este é o caminho de todo mortal, até ser moldado o suficiente pra tornar-se pleno e deixar então de ser matéria, pó, mas encerrar também essa etapa de dualidade turbulenta e constante que chamamos de vida terrena. Que seja doce o caminho, mas não será sempre, haverá dor, haverá sangue, haverão pedras, mas haverá vida, e esperança, e vida outra vez sempre bem-vinda. Que eu ganhe, que nós vençamos, e sejamos melhores e maiores do que nós mesmos.
